"Natália! Oh, Natália!
Natália, corre aqui!”
Ouviu passos apressados
em sua direção. Adentrou seu quarto aquela bela figura. Ele nem podia descrever
quanta beleza enxergava naquela jovem que há dias vira nascer. Sentia orgulho ao
vê-la mulher feita! Natália era a mais doce entre seus netos, e talvez a mais
linda e doce criatura que já conhecera.
Ofegante e com olhos
carregados de preocupação, ela veio atender ao chamado do avô. “Nô! O que foi?
Precisa de alguma coisa?”. Ele somente a havia chamado com a desculpa de que
precisava urgentemente de ajuda para pegar um livro que deixara sobre uma
prateleira, a qual sua condição física não o permitia alcançar. Ao receber o
livro das mãos dela, começou a contar-lhe sobre a história deste clássico da
literatura, Cem anos de solidão de
Gabriel Gárcia Márquez. Poderia falar horas a fio sobre aquela obra, mas ao
passarem-se alguns minutos, lhe foi possível notar a doçura de Natália
convertendo-se num grande enfado. Com a desculpa de que havia deixado um
urgente trabalho para atender ao seu Nô, Natália deu-lhe um beijo e se foi. Ele
imaginou quem mais poderia chamar, quem estaria disposto a passar alguns
minutos com ele, e ninguém além de Natália lhe vinha à cabeça. Mesmo estando em
uma casa cheia de pessoas, parecia que a vida não mais residia ali. Não podia
imaginar que tipo de maldição se abatera sobre aquela família para que o brilho
no olhar se apagasse de tal maneira que viesse a torná-los todos tão próximos e
tão solitários.
Tomava esta
impossibilidade de conversar livremente com alguém interessado quase como uma
ofensa a sua pessoa. Acreditava que às vistas de seus entes ele era apenas um
velho carente e um estorvo. “O que não deixa de ser uma grande verdade!” –
exclamava sozinho olhando vezes pela janela, vezes deslizando os dedos trêmulos
sobre a capa empoeirada e abandonada de seu precioso livro.
Refletia então sobre
seus livros, sobre a necessidade de que as pessoas os lessem, que se
interessassem por estas infinitas histórias que tecem a história humana.
Sentia-se fatigado pelo seu esforço inútil em tentar educar seus netos para
perpetuarem a tradição humanística de sua família. “Sou apenas um velho chato
com livros chatos.” Estes pareciam ser, agora, sua única companhia.
“Mas
não é possível que não gostem, que não fiquem assustados de como podem as histórias
serem eternas! As pessoas não o são, mas as histórias sim!”. Pensava, enfim,
sobre como as pessoas e a vida eram para ele passageiras. “Talvez só se perceba
isso quando se está prestes a morrer, mesmo que este prestes esteja durando tempo demais!”. Esperava pela morte como
quem espera o carteiro chegar com uma bela encomenda, e ela, no entanto, não
dava as caras, e a vida tornava-se a cada dia mais enfadonha. Cansado, queria pôr
fim a este vai-e-vem da vida, revoltava-se com o fato das coisas boas não
durarem para sempre.
Lembrava-se de um conto[i]
de Tchekhov onde lera que “as pessoas, com os seus semblantes, as suas falas,
aparecem ligeiramente na vida e submergem em nosso passado, não deixando mais
que as pegadas insignificantes da memória”. Sua memória já não funcionava tão
bem quanto gostaria. As lembranças pareciam perder a significação real das
coisas às quais se referiam, e, com o tempo, elas foram empalidecendo, fugindo
da consciência e caindo nos braços da imaginação e da fantasia. Parecia perder
assim um tanto de sua identidade, mas era delicioso recriar uma nova a partir
de devaneios; esta empreitada de restaurar com novas cores as lembranças
tomava-lhe grande parte das horas, e em todas as outras buscava novos meios de
sanar a dor de, mesmo cansado, persistir em viver, novos meios de esperar a
morte chegar.
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