terça-feira, 30 de abril de 2013

Enquanto a morte não vem

"Natália! Oh, Natália! Natália, corre aqui!”
Ouviu passos apressados em sua direção. Adentrou seu quarto aquela bela figura. Ele nem podia descrever quanta beleza enxergava naquela jovem que há dias vira nascer. Sentia orgulho ao vê-la mulher feita! Natália era a mais doce entre seus netos, e talvez a mais linda e doce criatura que já conhecera.
Ofegante e com olhos carregados de preocupação, ela veio atender ao chamado do avô. “Nô! O que foi? Precisa de alguma coisa?”. Ele somente a havia chamado com a desculpa de que precisava urgentemente de ajuda para pegar um livro que deixara sobre uma prateleira, a qual sua condição física não o permitia alcançar. Ao receber o livro das mãos dela, começou a contar-lhe sobre a história deste clássico da literatura, Cem anos de solidão de Gabriel Gárcia Márquez. Poderia falar horas a fio sobre aquela obra, mas ao passarem-se alguns minutos, lhe foi possível notar a doçura de Natália convertendo-se num grande enfado. Com a desculpa de que havia deixado um urgente trabalho para atender ao seu Nô, Natália deu-lhe um beijo e se foi. Ele imaginou quem mais poderia chamar, quem estaria disposto a passar alguns minutos com ele, e ninguém além de Natália lhe vinha à cabeça. Mesmo estando em uma casa cheia de pessoas, parecia que a vida não mais residia ali. Não podia imaginar que tipo de maldição se abatera sobre aquela família para que o brilho no olhar se apagasse de tal maneira que viesse a torná-los todos tão próximos e tão solitários.
Tomava esta impossibilidade de conversar livremente com alguém interessado quase como uma ofensa a sua pessoa. Acreditava que às vistas de seus entes ele era apenas um velho carente e um estorvo. “O que não deixa de ser uma grande verdade!” – exclamava sozinho olhando vezes pela janela, vezes deslizando os dedos trêmulos sobre a capa empoeirada e abandonada de seu precioso livro.
Refletia então sobre seus livros, sobre a necessidade de que as pessoas os lessem, que se interessassem por estas infinitas histórias que tecem a história humana. Sentia-se fatigado pelo seu esforço inútil em tentar educar seus netos para perpetuarem a tradição humanística de sua família. “Sou apenas um velho chato com livros chatos.” Estes pareciam ser, agora, sua única companhia.
            “Mas não é possível que não gostem, que não fiquem assustados de como podem as histórias serem eternas! As pessoas não o são, mas as histórias sim!”. Pensava, enfim, sobre como as pessoas e a vida eram para ele passageiras. “Talvez só se perceba isso quando se está prestes a morrer, mesmo que este prestes esteja durando tempo demais!”. Esperava pela morte como quem espera o carteiro chegar com uma bela encomenda, e ela, no entanto, não dava as caras, e a vida tornava-se a cada dia mais enfadonha. Cansado, queria pôr fim a este vai-e-vem da vida, revoltava-se com o fato das coisas boas não durarem para sempre.
 Lembrava-se de um conto[i] de Tchekhov onde lera que “as pessoas, com os seus semblantes, as suas falas, aparecem ligeiramente na vida e submergem em nosso passado, não deixando mais que as pegadas insignificantes da memória”. Sua memória já não funcionava tão bem quanto gostaria. As lembranças pareciam perder a significação real das coisas às quais se referiam, e, com o tempo, elas foram empalidecendo, fugindo da consciência e caindo nos braços da imaginação e da fantasia. Parecia perder assim um tanto de sua identidade, mas era delicioso recriar uma nova a partir de devaneios; esta empreitada de restaurar com novas cores as lembranças tomava-lhe grande parte das horas, e em todas as outras buscava novos meios de sanar a dor de, mesmo cansado, persistir em viver, novos meios de esperar a morte chegar.




[i] O conto ao qual se refere é Viérotchka, de 1888.

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