Não sei se me disseram um dia, ou se cheguei a esta conclusão sozinha, mas a máxima ainda me persegue: se você não encontra com quem falar sobre suas angústias, escreva sobre elas. Na verdade acredito que o original abria possibilidade a todo tipo de arte. Mas isso não importa aqui.
Escrever é uma maneira de organizar idéias e sentimentos. Em dias como hoje procuro escrever. Procuro escrever para entender o porquê me sinto assim tão bagunçada e tão vazia. Talvez nem seja questão de entender, mas de só sentir.
Acontece que toda angústia precisa ser sanada. O vazio precisa preenchido, nem que seja com um sentido. O meu vazio é esvaziado de sentido. Ora, pra quê ter algo tão vazio? Possuir a não existência?
Paradoxo da vida: buscar a abolição da propriedade, mas sentir-se navegando na liberdade e sofrer por não possuir a nada. Caramba! Quero ou não a existência da propriedade? O vazio vem do não pertencimento. Maldita pós-modernidade, maldita liquidez. O que fazer com tanta liberdade? Maldito martelo de Nietzsche. Onde estão meus ídolos? Onde estão minhas relações sociais? Onde estão os pilares da existência? Ruínas. Período de transição no qual sentimo-nos estúpidos. A cada dia com mais informação e mais estúpidos. Se fosse alguma sábia grega diria que "só sei que nada sei", mas não deixaria de desejar a cicuta após isso. Ou uma fluoxetina. Um floral. Um antialérgico já ajuda.
Dominar o anseio de satisfazer a todos - o número cresce a cada dia - satisfaze-los plenamente, realmente. Limiar tênue entre real e virtual. O que é real? Que olhar é real? É presente? É diverso? Que riso é genuíno? Que amor é esse que dura apenas alguns fonemas?
Como viver? Se existe algum ser vivo que não reflita, talvez este saiba as respostas.
Ouviu passos apressados
em sua direção. Adentrou seu quarto aquela bela figura. Ele nem podia descrever
quanta beleza enxergava naquela jovem que há dias vira nascer. Sentia orgulho ao
vê-la mulher feita! Natália era a mais doce entre seus netos, e talvez a mais
linda e doce criatura que já conhecera.
Ofegante e com olhos
carregados de preocupação, ela veio atender ao chamado do avô. “Nô! O que foi?
Precisa de alguma coisa?”. Ele somente a havia chamado com a desculpa de que
precisava urgentemente de ajuda para pegar um livro que deixara sobre uma
prateleira, a qual sua condição física não o permitia alcançar. Ao receber o
livro das mãos dela, começou a contar-lhe sobre a história deste clássico da
literatura, Cem anos de solidão de
Gabriel Gárcia Márquez. Poderia falar horas a fio sobre aquela obra, mas ao
passarem-se alguns minutos, lhe foi possível notar a doçura de Natália
convertendo-se num grande enfado. Com a desculpa de que havia deixado um
urgente trabalho para atender ao seu Nô, Natália deu-lhe um beijo e se foi. Ele
imaginou quem mais poderia chamar, quem estaria disposto a passar alguns
minutos com ele, e ninguém além de Natália lhe vinha à cabeça. Mesmo estando em
uma casa cheia de pessoas, parecia que a vida não mais residia ali. Não podia
imaginar que tipo de maldição se abatera sobre aquela família para que o brilho
no olhar se apagasse de tal maneira que viesse a torná-los todos tão próximos e
tão solitários.
Tomava esta
impossibilidade de conversar livremente com alguém interessado quase como uma
ofensa a sua pessoa. Acreditava que às vistas de seus entes ele era apenas um
velho carente e um estorvo. “O que não deixa de ser uma grande verdade!” –
exclamava sozinho olhando vezes pela janela, vezes deslizando os dedos trêmulos
sobre a capa empoeirada e abandonada de seu precioso livro.
Refletia então sobre
seus livros, sobre a necessidade de que as pessoas os lessem, que se
interessassem por estas infinitas histórias que tecem a história humana.
Sentia-se fatigado pelo seu esforço inútil em tentar educar seus netos para
perpetuarem a tradição humanística de sua família. “Sou apenas um velho chato
com livros chatos.” Estes pareciam ser, agora, sua única companhia.
“Mas
não é possível que não gostem, que não fiquem assustados de como podem as histórias
serem eternas! As pessoas não o são, mas as histórias sim!”. Pensava, enfim,
sobre como as pessoas e a vida eram para ele passageiras. “Talvez só se perceba
isso quando se está prestes a morrer, mesmo que este prestes esteja durando tempo demais!”. Esperava pela morte como
quem espera o carteiro chegar com uma bela encomenda, e ela, no entanto, não
dava as caras, e a vida tornava-se a cada dia mais enfadonha. Cansado, queria pôr
fim a este vai-e-vem da vida, revoltava-se com o fato das coisas boas não
durarem para sempre.
Lembrava-se de um conto[i]
de Tchekhov onde lera que “as pessoas, com os seus semblantes, as suas falas,
aparecem ligeiramente na vida e submergem em nosso passado, não deixando mais
que as pegadas insignificantes da memória”. Sua memória já não funcionava tão
bem quanto gostaria. As lembranças pareciam perder a significação real das
coisas às quais se referiam, e, com o tempo, elas foram empalidecendo, fugindo
da consciência e caindo nos braços da imaginação e da fantasia. Parecia perder
assim um tanto de sua identidade, mas era delicioso recriar uma nova a partir
de devaneios; esta empreitada de restaurar com novas cores as lembranças
tomava-lhe grande parte das horas, e em todas as outras buscava novos meios de
sanar a dor de, mesmo cansado, persistir em viver, novos meios de esperar a
morte chegar.
[i] O conto ao qual se refere é Viérotchka,
de 1888.
Ah, que enfado de vida angustiante! Muito se pede às crianças que sonhem, mas nunca se ensina como sonhar,
sonhar com realismo... Será porque isto é impossível? Sempre que se sonha algo, pode-se sonhar um pouco mais. Vigaristazinho
ambicioso, o tal do sonho... Não se contenta com pouco. O contentamento produzido pela expectativa, pela simples possibilidade
de ser real. O sonho aspira ser real, aspira ser corrompido. Ora, quando se
realiza, o sonho já não é... o contentamento já não é... não corresponde à
expectativa formada. O mundo alheio à concretude é muito melhor; ver a si neste âmbito
superior é delicioso... este permite o ir-e-vir entre padrões e sabores.
Sensações novas serão experimentadas, sutilezas roubadas... Suave sensação de liberdade, de ser o que se quer,
de viver toda uma arara repleta de mundos possíveis, em que esta pequena mônada
é livre!
Vestir-se de tecidos neon, cabelos eriçados ou alinhados em uma beca
fina. Do diferente, ao invisível... A luz do holofote me cega e me esquenta; me
acolhe, me abraça. A expressão da vida sob a resistência. Novas formas de
pensar o mundo... novas formas! O templo sagrado me chama... necessito estar lá. Todavia não me considero digno, só os imortais podem
adentrá-lo, os escolhidos podem sentir o conforto da luz, da atenção divinal.
Todavia ele me chama. A necessidade dele me consome, a impossibilidade de
conhecer seus ritos sagrados me angustia. Mas o sonho, este me eleva, me move.
Seria
o amor mensurável? O que é o amor? Como entendê-lo? Como medi-lo?
O
amor, essa coisa inorgânica que é capaz de nos fazer vibrar, mexer com cada
célula de nosso corpo. Por acaso essa coisa de amar é útil? Pra quê chorar por
alguém? Pra quê sofrer com aquilo que nossa imaginação diz sentir ou não o
outro que nos afeta por nós? Porque?
Difícil
entender, mais difícil ainda é se desvencilhar desta rede que a vida parece
tecer a nossa volta, desta arapuca armada pelo acaso. Amar é difícil.
Grandes
escreveram sobre o amor. Hei de confessar que, possuindo este sentimento, já me
senti uma poetisa; escrevia sobre o amor, via a necessidade de declará-lo sob a forma que pudesse melhor se aproximar da beleza daquilo que sentia. Não
creio tê-lo logrado, apesar das incontáveis tentativas. Quando amamos, o mundo
nos parece mais doce, mais bonito, mais suportável. O conforto da ilusão do fim
– finalmente! – dos dias de solidão ao encontrarmos alguém que, por conta uma
pré-compatibilidade encontramo-nos aptos a amar-nos, é uma delícia que é saboreada
lentamente, distribuída em muitos dias de felicidade. Mas quando chega ao fim desta
ilusão, o resultado é devastador: há um amortecimento das faculdades que nos
permite perceber a realidade, e a ilusão se converte em outra pior. Voltamos à
estaca zero: solidão parece ainda pior depois de ter se experimentado a
sensação de completude junto do outro.
A
força do amor imputa à comunicabilidade universal (Eu te amo e vou gritar pra
todo mundo ouvir!). A alegria, o júbilo de amar é responsável por um sem número
de frases eufóricas sem sentido.
Amor
e paixão. Numa relação de amor erótico, amor e paixão têm de estar presentes.
As coisas se complicam quando o amor é abandonado pela paixão, e o amor
torna-se solitário. Só o amor não basta. O amor sozinho produz grandes belezas,
mas quando aliado à paixão, sua força torna-se avassaladora. Quando apenas se ama, sem paixão, chamamos
esta relação de fraterna ou ainda de casamento. Há de haver amor, há de haver
paixão.
Amar
demais é inevitável. Venho em defesa daqueles que amam demais, pois amar nunca
é demais. Mas falando em amar demais, poderíamos primeiro nos perguntar se
acaso podemos mesmo medir o amor, se existe mesmo um amor maior que o outro.
Essa questão já me fez perder alguns cabelos, ter algumas dores de cabeça e por
que não, derramar algumas lágrimas. Acho difícil encontrar alguém que não tenha
chorado por amor, ou ainda por amar demais alguém que parece não te amar tanto
assim, ou nem sequer te olhar.
Desconfortável,
desagradável, desestimulante e des-tudo-de-bom é quando você se percebe numa
situação na qual parece ser você aquele que mais ama, que mais se dedica, e
que, enfim, demonstra mais que ama –
afinal este mundo é feito, acima de tudo, de aparências. Demonstrar que ama
demais é até constrangedor. Ponha-se nesta situação: você é um(a) compositor(a),
e o motivo maior da sua inspiração poética é a pessoa por você amada. Você se
deleita em mostrar das mais variadas formas, nas mais variadas harmonias, nos
mais variados tons, nas mais variadas canções o quanto ama àquela pessoa, você precisa expressar todo este amor que está sentindo. Oferece estas produções amorosas ao amado(a) e esta(e) te olha com olhar de reprovação por seu excesso. Ora, seria isso um amor em
excesso? E como poderia o amor incomodar, mesmo que "em excesso"? Reformulemos nossa pergunta
principal: demonstrações de amor incomodam? Mas como saber o limiar entre o
agradável e o excessivo? Seria assim tão relativo?
Perguntas
difíceis que minha compreensão ainda não conseguiu sugerir alguma boa resposta,
somente as chulas e emotivas de quem ama demais. Mas de uma coisa tenho
certeza: prefiro amar demais que amar demenos.
A cigana vaga, por conta disto possui uma diversa percepção do mundo. “Seu mundo é um mundo construído por você e por suas ilusões, ergo ele não é real” - sussurra com uma voz sorrateiramente suave sua Razão. Ela prefere ignorar esta presença imposta da Razão e seus conselhos impertinentes. Sente tudo a sua volta com a intensidade de quem tem a necessidade de conhecer todos os sentimentos do mundo. Observa todos a sua volta, e se exalta com a possibilidade do alternativo; seu maduro otimismo em meio à desgraça, otimismo gerado apenas por si e que luta para não ser influenciado pelo estranho mundo a sua volta, a motiva. Olha a cada indivíduo como um desafio: são mundos e pensamentos a serem desvendados, e esta paixão a levava a aproximar-se e procurar adivinhar pelas mãos desconhecidas o passado e o futuro.
Quão fascinante é cada pessoa! Quão complexa será a rede de sua vida desde o início até seu ocaso! A aproximação, o toque das mãos! Que prazer incrível o mundo de possibilidades o desconhecido proporciona! As infinitas possibilidades exaltavam seu espírito. Era incrível o que aquela mente criativa era capaz de prever para o futuro de cada um dos que abordava e o passado mirabolante que sonhava. Seus interlocutores viam graça na vivacidade com a qual ela discursava sobre o que era e o que viria a ser, baseada nas informações que dispunha deles, mesmo que estas consistissem apenas na maneira de caminhar, de olhar, observar e reagir ao entorno. O calor das emoções da cigana era comovente. Alguns a julgavam uma criança, devido a sua vivacidade pueril, expressão leve e sorriso incrustado nos lábios. Não pensemos, no entanto, que esta era cândida. Saturada de experiências da vida e da vivência do terrível, havia, no entanto, algo que a diferia. Algum movimento díspar parecia ser gerado em suas entranhas. Havia algo que a movia e que a ela soava como o ar que a inspirava. Habitava dentro de si uma centelha do sublime, de um poder arrebatador que a tomava por completo, fazendo esvaírem-se os ínfimos óbices que a vida lhe propunha.
Alimentava seu espírito com expectativas e conjunturas, com possibilidades e com o desconhecido. Sendo a imersão na alteridade aquilo que agitava seu ânimo, esperava, contudo, pelo dia em que encontrasse um alguém que a olhasse e a decifrasse submergindo na profundidade de seus negros olhos. Sua quimera residia na busca deste ideal, quando seu olhar desnudo revelasse tudo de si e pudessem ser corretamente decifrado e compreendido em plenitude por alguém. Imaginava com vivacidade este momento mágico, no qual este alguém a pudesse conhecer plenamente, a compreender. Suas esperanças tornavam-se, no entanto, a cada dia mais escassas.
Em certos momentos a melancolia tomava conta de si e a triunfal Razão decretava sentenças a cada movimento mais duras. Esta mesma sábia Razão impunha-se, então, questionamentos sobre a possibilidade real e matemática de que este fato imaginado viesse a acontecer, sua certa conclusão indicava para a impossibilidade do conhecimento das pessoas; e muito orgulhosa e persistente, a imponente Razão propunha a si mesmaa necessidade de uma análise das melhores maneiras possíveis de se fazer conhecer mais claramente, mais corretamente, mais racionalmente, a si e a seus sentimentos. Neste instante parecia, contudo, que a Senhora Razão entrava em uma profunda confusão e consequente paralisia. Como poderia racionalizar, para assim poder bem expressar seus sentimentos? Seria este processo realmente possível ou puramente paradoxal? Preguiçosa, a senhora Razão abandona a discussão com a conclusão de que os sentimentos nunca serão de fato conhecidos como as leis universais da geometria.
Mas o sentimento reconhece o sentimento. O desejo pela afinidade sentimental para com outrem que pudesse conhecer completamente o íntimo desta cigana, em cada desvio afetuoso, saía-se sempre vitorioso em suas corriqueiras disputas com a Razão, mesmo esta última sempre argumentando que talvez no momento em que encontrar esta compreensão nos olhos alheios, descubra que não era exatamente aquilo que desejava – argumento este forte, devido haver sido diversas vezes corroborado pela experiência.
Seu impulso hedonista prevalecia, e a contemplação do mundo e seus prazeres fazia sufocar a Razão e seus esforços de arrastá-la ao chão. Deliciava-se com a figura da bela cigana de vestes vermelhas, com moedas e penduricalhos. O poder de sedução desta figura a atraía mais que qualquer outra. Por isso se sentia uma poderosa cigana, apesar de suas calças jeans e camiseta. Ao observar a torrente de vida apressada, tranquila, preocupada, feliz, via apenas oportunidades. Sentia-se a Esmeralda dos tempos contemporâneos. E questionava-se: “Mas quem poderá dizer o que serei e o onde estarei amanhã?”.
Chover no molhado, é o que mais se faz atualmente.
Na boca do senso comum comumente se ouve o tal "nada se cria, e tudo se
copia". O grande Totó, não o da novela que descobri há pouco tempo sua
existência, mas aquele da Grécia Antiga, formalmente conhecido como
Aristóteles, bem como seu mestre, o admirável Platão, já diziam que a arte era
mimese, ou seja, imitação da natureza e da ação. A ideia da imitação já não é
tão nova assim.
Criar, entendido como fazer algo realmente novo,
sempre foi um problema na arte. Mas no século XVIII surgiu a idéia de gênio para
suprir a necessidade de compreender os autores de grandes obras que falavam por
si, de personalidades que eram verdadeiros "instrumentos da
natureza", e estes sim pareciam criar novas formas com as
velhas coisas já às nossas vistas desde sempre.
No mundo corporativo atual, a criação é exigida.
Mas, meu querido cara pálida? Criar seria reinventar? Na maioria
dos casos parece ser uma simples reinvenção.
O mundo da arte contemporaneamente clama por criações. Experimentações
e reinvenções não faltam. Não imagine você que outra área também respeitada não
seja também mera reinvenção. As ciências, o academicismo, não passam de novas
leituras daquela mesma coisa de sempre. Uma visão sobreposta a outra, uma mais
convincente que a outra, uma que melhor explica o funcionamento do objeto de
estudo. E os objetos da discussão são sempre os mesmos. Soa entediante,
não?
Não necessariamente. Um prisma multifacetado pode
ser olhado por cada um de seus lados, e já não será o mesmo. Não será criado,
mas reinventado. Ora, isto é óbvio. O mundo soa extremamente óbvio. E mais uma
vez, mais do mesmo.