quarta-feira, 30 de maio de 2012

As infinitas possibilidades nas entrelinhas das mãos


             A cigana vaga, por conta disto possui uma diversa percepção do mundo. “Seu mundo é um mundo construído por você e por suas ilusões, ergo ele não é real” - sussurra com uma voz sorrateiramente suave sua Razão. Ela prefere ignorar esta presença imposta da Razão e seus conselhos impertinentes. Sente tudo a sua volta com a intensidade de quem tem a necessidade de conhecer todos os sentimentos do mundo. Observa todos a sua volta, e se exalta com a possibilidade do alternativo; seu maduro otimismo em meio à desgraça, otimismo gerado apenas por si e que luta para não ser influenciado pelo estranho mundo a sua volta, a motiva. Olha a cada indivíduo como um desafio: são mundos e pensamentos a serem desvendados, e esta paixão a levava a aproximar-se e procurar adivinhar pelas mãos desconhecidas o passado e o futuro. 


           Quão fascinante é cada pessoa! Quão complexa será a rede de sua vida desde o início até seu ocaso! A aproximação, o toque das mãos! Que prazer incrível o mundo de possibilidades o desconhecido proporciona! As infinitas possibilidades exaltavam seu espírito. Era incrível o que aquela mente criativa era capaz de prever para o futuro de cada um dos que abordava e o passado mirabolante que sonhava. Seus interlocutores viam graça na vivacidade com a qual ela discursava sobre o que era e o que viria a ser, baseada nas informações que dispunha deles, mesmo que estas consistissem apenas na maneira de caminhar, de olhar, observar e reagir ao entorno. O calor das emoções da cigana era comovente. Alguns a julgavam uma criança, devido a sua vivacidade pueril, expressão leve e sorriso incrustado nos lábios. Não pensemos, no entanto, que esta era cândida. Saturada de experiências da vida e da vivência do terrível, havia, no entanto, algo que a diferia. Algum movimento díspar parecia ser gerado em suas entranhas. Havia algo que a movia e que a ela soava como o ar que a inspirava. Habitava dentro de si uma centelha do sublime, de um poder arrebatador que a tomava por completo, fazendo esvaírem-se os ínfimos óbices que a vida lhe propunha.

           Alimentava seu espírito com expectativas e conjunturas, com possibilidades e com o desconhecido. Sendo a imersão na alteridade aquilo que agitava seu ânimo, esperava, contudo, pelo dia em que encontrasse um alguém que a olhasse e a decifrasse submergindo na profundidade de seus negros olhos. Sua quimera residia na busca deste ideal, quando seu olhar desnudo revelasse tudo de si e pudessem ser corretamente decifrado e compreendido em plenitude por alguém. Imaginava com vivacidade este momento mágico, no qual este alguém a pudesse conhecer plenamente, a compreender. Suas esperanças tornavam-se, no entanto, a cada dia mais escassas.

             Em certos momentos a melancolia tomava conta de si e a triunfal Razão decretava sentenças a cada movimento mais duras. Esta mesma sábia Razão impunha-se, então, questionamentos sobre a possibilidade real e matemática de que este fato imaginado viesse a acontecer, sua certa conclusão indicava para a impossibilidade do conhecimento das pessoas; e muito orgulhosa e persistente, a imponente Razão propunha a si mesma a necessidade de uma análise das melhores maneiras possíveis de se fazer conhecer mais claramente, mais corretamente, mais racionalmente, a si e a seus sentimentos. Neste instante parecia, contudo, que a Senhora Razão entrava em uma profunda confusão e consequente paralisia. Como poderia racionalizar, para assim poder bem expressar seus sentimentos? Seria este processo realmente possível ou puramente paradoxal? Preguiçosa, a senhora Razão abandona a discussão com a conclusão de que os sentimentos nunca serão de fato conhecidos como as leis universais da geometria.

             Mas o sentimento reconhece o sentimento. O desejo pela afinidade sentimental para com outrem que pudesse conhecer completamente o íntimo desta cigana, em cada desvio afetuoso, saía-se sempre vitorioso em suas corriqueiras disputas com a Razão, mesmo esta última sempre argumentando que talvez no momento em que encontrar esta compreensão nos olhos alheios, descubra que não era exatamente aquilo que desejava – argumento este forte, devido haver sido diversas vezes corroborado pela experiência.

            Seu impulso hedonista prevalecia, e a contemplação do mundo e seus prazeres fazia sufocar a Razão e seus esforços de arrastá-la ao chão. Deliciava-se com a figura da bela cigana de vestes vermelhas, com moedas e penduricalhos. O poder de sedução desta figura a atraía mais que qualquer outra. Por isso se sentia uma poderosa cigana, apesar de suas calças jeans e camiseta. Ao observar a torrente de vida apressada, tranquila, preocupada, feliz, via apenas oportunidades. Sentia-se a Esmeralda dos tempos contemporâneos. E questionava-se: “Mas quem poderá dizer o que serei e o onde estarei amanhã?”.

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